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Manifestação da SBPC e ABC sobre a situação do Museu Nacional

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A VIDA E A MORTE DA CIÊNCIA E DA MEMÓRIA NACIONAIS

Diante do espetáculo dramático das chamas engolindo o Museu Nacional e, com ele, uma parte importante da ciência e da memória nacionais, a Academia Brasileira de Ciências, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, bem como as sociedades cientificas abaixo mencionadas, manifestam tristeza e indignação e conclamam a sociedade brasileira a participar ativamente da defesa do patrimônio cultural e científico da nação brasileira.

Como se já não bastasse a ameaça para o futuro da nação associada aos severos cortes orçamentários, que têm afetado o desenvolvimento científico e tecnológico do país, agora esvai-se a memória do passado, matéria prima essencial para a construção da identidade nacional.

A morte do Museu Nacional tem um significado simbólico que vai além dessa imensa perda para a cultura brasileira. Pois outros ativos também estão perecendo: com muita preocupação acompanhamos a desindustrialização do país, a precariedade da educação científica no Ensino Médio, o sucateamento de laboratórios de pesquisa de universidades e de outras instituições de ciência e tecnologia e o êxodo de jovens pesquisadores, fruto de uma política econômica que ignora o papel essencial da ciência, da educação, da cultura e da inovação no desenvolvimento de um país. Que trata recursos para C&T como gastos, e não como investimentos com alto poder de retorno, contribuindo para aumentar o PIB e o protagonismo dos países no mundo contemporâneo.

Neste momento de luto, no qual nossas entidades se solidarizam com os colegas pesquisadores, servidores e estudantes do Museu Nacional, impõe-se um esforço concentrado para reconstruir o Museu Nacional. O objetivo não será certamente a impossível reconstrução das coleções perdidas ou dos irrecuperáveis tesouros históricos e científicos que têm alimentado a pesquisa nessa instituição. Será, sim, a reconstrução de uma ideia que o fogo não devora, de um Museu que sirva de referência para as futuras gerações, repetindo a fórmula que esteve presente na sua história, de um acervo histórico e científico apoiado na pesquisa científica, reunindo assim indissoluvelmente a memória e a investigação, o passado e o futuro.

É preciso, com urgência, liberar recursos emergenciais para o Museu Nacional, garantir a segurança do imóvel atual, estabelecer locais de trabalho adequados para os pesquisadores, e possibilitar a ampliação do espaço do museu, adjudicando o terreno próximo já reivindicado pela direção do Museu, deslocando assim do Palácio as atividades administrativas, de pesquisa, de guarda de coleções e de ensino de pós-graduação. Isso, aliado a dotações orçamentárias adequadas para o futuro, permitiria a continuidade da instituição, com suas atividades de ensino e pesquisa, a realização de exposições públicas, com os serviços vinculados de museologia, divulgação científica e de assistência ao ensino.

As chamas que devoraram o Museu Nacional enviaram uma mensagem de alerta para a sociedade brasileira. Para salvar o patrimônio histórico, cultural e científico do país são necessárias medidas concretas e o estabelecimento efetivo de políticas públicas, como aquelas propostas no Livro Azul da IV Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. É fundamental que sejam tomadas ações adequadas e urgentes para salvar a ciência, a tecnologia e a inovação no País. Urge impedir que essas chamas se alastrem e consumam o futuro do Brasil.