Aluízio Borém
Algumas lideranças políticas reafirmaram recentemente que por uma questão de coerência o PT deveria ser contra os produtos transgênicos. O PT é o partido político que se intitula de maior coerência histórica. Entretanto, a decisão tomada pelo governo Lula continua a surpreender positivamente aos que noa acreditavam nele. Após o poder executivo escutar cientistas de diferentes instituições de pesquisa do Brasil indicarem que a soja tolerante a herbicidas é segura para consumo humano e para o meio ambiente, o ideologismo deu lugar à razão. O mesmo lema de outrora de que “o medo daria lugar à razão”, parece estar norteando o País. A decisão que o governo federal tomou de aprovar liberar por meio da medida provisória o plantio e comercialização da soja transigência esta fundamentada nos mesmos dados experimentais analisados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio durante todo o ano de 1998, que resultou na emissão de seu parecer conclusivo favorável a liberação deste produto àquela época. Esta decisão foi inclusive apoiada pelos então representantes do Ministério do Meio Ambiente na CTNBio. Como todos os dados indicavam a sua segurança a soja transigência foi aprovada sem votos contra.
A argumentação que se utilizou para se retardar o plantio desta soja no Brasil era de que ela poderia causar algum efeito adverso ao meio ambiente. Plantadas em 16 países, incluindo: Argentina, Uruguai, Colômbia, Honduras, México, Espanha, Alemanha, África do Sul, Austrália, Estados Unidos, Canada dentre outros países, as variedades geneticamente modificadas ocuparam uma área de 58,7 milhões de ha em 2002. A área total plantada acumulada com estas variedades desde 1996 é de 234 milhões de há. Corroborando os dados científicos obtidos experimentalmente, o plantio dos transgenicos em tão grande área não resultou em nenhum efeito adverso a saúde humana ou ao meio ambiente. O prejuízo que pode ser detectado esta na economia brasileira que gastou cerca de US$ 2 bilhões a mais em herbicidas nas lavouras convencionais. Na media da ultima safra, a soja transigência gaúcha consumiu R$ 13,80 em herbicidas para controle do mato, enquanto quem plantou a soja convencional teve de desembolsar R$ 186,00. Nesta safra recorde de 52 milhões ton. de soja a venda de defensivos agrícolas declinou 17,5%, para uma colheita 26% maior. Tivesse esta soja sido liberada logo após os estudos e emissão do parecer da CTNBio, os agricultores brasileiros teriam não só melhor se capitalizados, mas também aplicado menos defensivos as suas lavouras com benefícios para o meio ambiente. De quem é a responsabilidade deste atraso? Do governo passado que se omitiu e contribuiu para todo este imbróglio jurídico que testemunhamos? Mais importante do que nos preocuparmos com o passado é olhar para o futuro e torcermos para que a lição não permita que mais prejuízos deste atraso se repitam. Quando nossos agricultores desejarem plantar outros produtos geneticamente modificados que permitamos a CTNBio a analise de sua segurança alimentar e ambiental e que a decisão sobre a sua liberação para plantio e comercialização seja tomada com base em dados científicos e não em crendices ou ideologismos.
A soja brasileira é mais produtiva que a americana e seu custo de produção menor. Aliado a isto ela possui maior teor de óleo e proteína devido ao nosso clima mais quente. Com os benefícios desta nova tecnologia disponibilizada esta semana disponibilizada para os sojicultores brasileiros, acredita-se que em 5 a 7 anos a área cultivada com esta leguminosa no Brasil ultrapasse a área plantada nos EUA e o Brasil se torne o maior produtor mundial de soja.
Os dados de exportação mostram que a soja RR não sofre barreiras no cenário internacional. O tamanho do mercado para soja não transgênica é extremamente reduzido e não paga melhor por estes produtos.
De cabeça erguida o governo não deve tratar os OGMs como sendo a soja. Muitos outros produtos estão sendo desenvolvidos e aqueles que forem seguros para a saúde humana e para o meio ambiente devem ser considerados pela agricultura brasileira. Sujeitar nossas lavouras a tecnologia ultrapassadas e poluidoras é um desserviço à biodiversidade do Brasil. Com vários dos OGMs os agricultores podem reduzir a aplicação de agrotoxicos prejudiciais ao meio ambiente.
Parabéns senhores governantes! A era negra do obscurantismo já se passou. Já em agosto o Presidente Lula havia dito que a o futuro do Brasil deve ser traçado com segurança e não com superstições. A ciência realizada por cientistas do governo esta ai para apoiar o executivo em suas decisões.
[1] Eng. Agrônomo, M.S. Ph.D., Professor da Universidade Federal de Viçosa. Email: borem@ufv.br |