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 Mitos sobre os OGMs
 30/06/2006
Aluízio Borém

As possibilidades de transformação gênica das espécies vegetais utilizadas como alimentos pelo homem são enormes: arroz rico em vitaminas, tomate contendo anti-oxidantes benéficos a saúde humana, amendoim sem proteínas alergênicas, bananas contendo vacinas, soja com óleo mais saudável para a dieta de pacientes cardíacos, etc.
Enquanto a maioria dos cientistas percebe grande potencial de melhoria dos alimentos com a biotecnologia, parte do público, manipulado por ONGs vestidas de defensoras do meio ambiente, ainda se sente insegura com estes novos produtos. A ansiedade do público tem, entretanto, diminuído com o melhor entendimento da tecnologia. Os principais receios dos céticos são o risco de escape gênico, isto é, risco dos transgenes se espalharem no meio ambiente por cruzamento natural entre as variedades geneticamente modificadas e seus parentes silvestres, tornando-os difíceis de serem controladas. Finalmente, alguns temem que os alimentos geneticamente modificados possam conter alguma substância que promova reações alérgicas. Estas e outras questões da segurança destes produtos são exaustivamente analisadas antes da liberação de qualquer um deles para o plantio e consumo.
O Brasil não pode se render a alienação tecnológica e continuar utilizando tecnologias ultrapassadas que contribuam para a poluição dos seus férteis solos com inseticidas e outros defensivos agrícolas altamente residuais. Excluir os produtores brasileiros das novas tecnologias que são seguras e que apresentam vantagens ecológicas é um desserviço a agricultura brasileira. É importante que os produtos desenvolvidos pela biotecnologia continuem sendo rigorosamente avaliados quanto a sua segurança para a saúde e para o meio ambiente e, aqueles que forem considerados seguros sejam disponibilizados para o produtor. Cientistas como o Dr. Norman E. Borlaug, Prêmio Nobel da Paz em 1970, por suas pesquisas com variedades semi-anãs de alto rendimento especialmente importantes para os países em desenvolvimento, defendem a utilização de OGMs. Muitos outros cientistas como James C. Watson, também laureado com o Prêmio Nobel, pela descoberta da estrutura do DNA, defende a adoção das variedades geneticamente modificadas, como forma de reduzir a aplicação de defensivos agrícolas na agricultura. As universidades e os institutos de pesquisa nacionais precisam do apoio público e legal para o desenvolvimento de variedades adaptadas às condições brasileiras. Estas não só aumentarão a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional, mas também reduzirão o uso de defensivos agrícolas nas lavouras.
O uso da biotecnologia para o desenvolvimento de novas variedades está promovendo uma revolução na forma de se produzir alimentos mais seguros para o homem e com menor agressão ao meio ambiente. Frustrar o avanço tecnológico quando ele é seguro e contribui para a preservação ambiental é uma agressão à inteligência humana. A primeira variedade assim desenvolvida foi colocada no mercado americano em 1994, após anos de testes quanto a sua segurança. Não existe nenhuma evidência de que as variedades geneticamente modificadas já em estudo por mais de 12 anos e em cultivo por mais de 8 anos em outros países façam mal a saúde humana ou ao meio ambiente. Os resultados na verdade indicam o contrário. Muitas destas variedades são mais saudáveis para a alimentação e seguras para o meio ambiente.
Após o desenvolvimento de uma nova variedade com o auxílio da biotecnologia ela é submetida a análises laboratoriais em uma primeira fase, onde se analisa sua composição química para um grande número de componentes. Caso a variedade seja considerada segura, ela é então submetida a testes em condições controladas, como em casa de vegetação. Finalmente, as variedades consideradas seguras para a saúde humana e para o meio ambiente são testadas em condições de campo sob supervisão dos órgãos competentes. A liberação de uso comercial e consumo só ocorre após exaustiva análise do material.
Após avaliar a segurança da soja tolerante ao herbicida Roundup para o consumo humano e para o meio ambiente e, tendo concluindo que não haviam quaisquer riscos, a CTNBio emitiu um parecer conclusivo favorável a desregulamentação desta variedade. O Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) e o Greenpeace obtiveram, entretanto, na mesma época uma liminar concedida pelo juiz da 11ª vara federal de Brasília, proibindo à União autorizar o plantio comercial da referida cultivar. Em 26 de junho de 2000, o Juiz Dr. Antônio Souza Prudente, proferiu sentença obrigando ao governo exigir a realização do estudos de impacto ambiental embora a CTNBio já houvesse analisado este assunto e considerado este procedimento dispensável no caso específico da soja.
A ofensiva ambientalista contra os transgênicos no Brasil é altamente incoerente uma vez que as variedades GM atualmente disponíveis resistentes a pragas e doenças contribuem para a redução no uso de defensivos agrícolas (inseticidas e outros). A adoção destas variedades em outros países resultou em marcante queda no volume de pesticidas aplicados nas lavouras, resultando em menor poluição ambiental e menos resíduos nos alimentos. Por exemplo, o plantio de algodão Bt nos EUA resultou, em média, em uma redução de 2,1 litros/ha no uso de inseticidas. Considerando que a área plantada com algodão Bt no mundo é de 3,2 milhões de ha, conclui-se que cerca de 6,7 milhões de litros de inseticidas deixaram de ser aplicados nas lavouras com a adoção destas variedades. Estimativas de redução na aplicação de defensivos agrícolas em outras culturas são igualmente impressionantes. Os campos plantados com as variedades geneticamente modificadas de canola, algodão, soja e milho tolerantes a herbicidas utilizaram em 2000 aproximadamente 6,0; 5,3; 2,9 e 1,5 milhões de kg de produtos formulados a menos que aqueles com variedades convencionais, respectivamente.

Quadro 1. Uso de inseticidas em algodão e percentagem de contaminação de operários de campo.

Algodão BtAlgodão Convencional
Dose utilizada (kg/ha)1652
Número de pulverizações720
Contaminação (%)930


Fonte: Huang et al. 2001.

Fonte: Huang et al. 2001.A redução no consumo de defensivos agrícolas nos EUA e Argentina, países que amplamente adotaram esta tecnologia, já inclusive resultou no fechamento de fábricas de inseticidas. Isto ajuda a entender a justificativa de algumas indústrias de defensivos, que não atuam em biotecnologia, a apoiarem algumas ONGs contrárias as variedades geneticamente modificadas.

[1] Eng. Agrônomo, M.S. Ph.D., Professor da Universidade Federal de Viçosa. E-mail: borem@ufv.br

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